Da redação ao Summer Game Fest: uma conversa sobre os bastidores do jornalismo de games
- 29 de jun.
- 8 min de leitura
Quando pensamos em trabalhar com games, é comum que as primeiras imagens que vêm à cabeça sejam as de desenvolvimento, arte, programação ou design. Mas existe uma outra área igualmente importante para a indústria: o jornalismo de games.
São esses profissionais que acompanham anúncios, testam lançamentos, entrevistam desenvolvedores, cobrem eventos internacionais e ajudam a contextualizar as transformações do mercado para milhões de jogadores.
Ao mesmo tempo, essa profissão vive um momento de profundas mudanças. A expansão dos criadores de conteúdo, as mudanças nos mecanismos de busca, o crescimento da inteligência artificial e a mudança nos hábitos de consumo alteraram significativamente a forma como o jornalismo especializado funciona atualmente.

Para entender melhor esse cenário, conversei com André Custódio, Editor Geral do República DG. André começou sua trajetória no jornalismo de games em 2018, passando por veículos como TecMundo, Voxel, Mega Curioso e MeuPlayStation antes de assumir a editoria do República DG. Neste ano, também participou presencialmente da cobertura do Summer Game Fest, um dos principais eventos da indústria mundial de jogos.
Ao longo da entrevista, ele compartilha sua visão sobre a evolução da profissão, explica as diferenças entre jornalismo e criação de conteúdo, comenta os bastidores da cobertura de grandes eventos internacionais e oferece conselhos para quem deseja construir uma carreira nessa área.
As respostas foram publicadas exatamente como foram concedidas, preservando o estilo e a visão do entrevistado.
Boa leitura!
Como você entrou no jornalismo de games e o que te fez escolher essa área?
Caí de paraquedas. Em 2018, passei por uma crise pessoal muito forte e acabei me desconectando da minha área. Na época eu ensinava. Então decidi ir em apps de freelancer e fui atrás de vagas que envolvessem escrita e home office (não era tão popular quanto hoje, então foi bem desestimulante). Vi uma vaga aberta pro TecMundo, escrevi um texto sobre American Horror Story, fui chamado no mesmo dia e comecei aí. Passei anos por lá, escrevendo pro Voxel e Mega Curioso também, pra depois ir pro MeuPlayStation e agora pro República DG, onde agora atuo como Editor Geral.

O que mais mudou na profissão desde que você começou?
Muita coisa mudou, algumas concretas e outras simbólicas. Concretas seriam, basicamente, a comunicação e o uso de IA. A inteligência artificial, aliás, prejudicou muito os sites brasileiros ao gerar sua própria ferramenta de SEO via Google. Com isso, os números caíram muito e alguns deles fecharam as portas. Fora isso, o jornalismo brasileiro é extremamente engessado, reciclado e movido por regras. Seus textos nem de longe são orgânicos ou autorais. Como o público não busca isso, os antigos consumidores de conteúdos foram pro TikTok, Instagram e YouTube, e deixaram pra trás um hábito que nem de longe faz parte do dia a dia brasileiro: a leitura. Como você consegue observar, as mudanças foram um grande efeito em cadeia onde fatores internos e externos contribuíram para grandes mudanças no cenário nacional. E se você comparar números com os dos sites gringos… Bom, vai desestimular quem quer entrar nessa área.
Muitas pessoas confundem jornalismo de games com criação de conteúdo. Como você diferencia essas duas atividades?
O jornalismo é bem mais engessado do que a criação de conteúdo. A criação de conteúdo nós costumamos associar ao termo freestyle, onde há uma grande margem pro improviso, pro erro e pras marcas de oralidade. Fora as possibilidades infinitas de edição e de recursos audiovisuais que as ferramentas oferecem (TikTok, Instagram, CapCut, Adobe e tudo mais).Já o jornalismo é datado e tem uma barreira de cláusula altíssima. Uma muralha da China. Converso com alguns profissionais da área e eles não veem espaço para quebrar essa barreira. Regras de WordPress, por exemplo, são abusivas e passam a impressão de que o SEO é obrigatório. Porém, com essas mudanças do Google, as pessoas ainda não entenderam que o WordPress estaria datado e desatualizado em relação a INCONTÁVEIS diretrizes. Mas não julgo; o jornalismo é uma aplicação prática do aprendizado.
Sendo mais direto, o jornalismo não é criação de conteúdo em si por ter como base a transmissão de informações já existentes, no caso notícias, publis, afiliação, editoriais… Tudo isso não se fundamenta em uma “criação”, mas sim em “reprodução”. Mas isso não quer dizer que ele não possa ser transformado na criação de conteúdo. Apenas o engessamento dificulta isso e a necessidade de divulgar informações rapidamente faz a reprodução ser mais conveniente. Já a criação de conteúdo em si é bem mais livre e suas únicas restrições seriam, basicamente, as políticas de proteção das plataformas.
Como surgiu a oportunidade de cobrir presencialmente o Summer Game Fest?
Na época, eu já cobria presencialmente BGS e BIG Festival (antes de ser incorporado a gamescom Latam). Então, como o processo de credenciamento é bem semelhante e toda a ideia de cobertura é basicamente a mesma, foi puramente uma questão financeira mesmo.

Como foi a preparação para a viagem e para a cobertura do evento?
Um dia desses tava vendo um vídeo da Renata Silveira e me identifiquei bastante. Há um longo período de preparação. Já viajamos sabendo de tudo que vamos cobrir por lá e de tudo que vamos jogar, porém há diversos inconvenientes. Às vezes, por exemplo, terminamos o teste de um jogo na metade do tempo previsto, então esse tempo “extra” usamos pra entrar em contato com outros PRs e buscar novos spots de jogos que não estavam nos nossos planos. Então basicamente a preparação é: direcionamento de atividades do evento, criação de roteiros para produção de conteúdo, separar equipamentos (como gravo, levo tripé, barra de LED, dois celulares, microfones e tudo mais), preparar possíveis entrevistas, aprender mais sobre os jogos pra não passar vergonha lá e separar toda a documentação, já que precisamos dela o tempo todo.
Como é um dia típico de trabalho durante o Summer Game Fest?
Há duas etapas no Summer Game Fest: o evento principal e o fim de semana do Play Days. No evento principal, nos deslocamos pro local, apresentamos nosso credenciamento, vamos pra cadeira já marcada e assistimos as duas horas de evento, podendo gravar com celular, levar notebooks registrados previamente e mais.
Já o Play Days é um bilhão de vezes mais cansativo. Entre as 10h e 19h, jogamos dezenas de jogos, escrevemos dezenas de textos, criamos dezenas de vídeos, fazemos algumas entrevistas e tem muito network com criadores gringos e nacionais. Ficar parado é sempre perda de tempo e de possibilidades, então acaba que você não tem 5 minutos pra fazer uma ligação que não envolva o evento. Felizmente o lugar é pequeno e bem direcionado por mapas e por vários ajudantes.
Existe algo que acontece nos bastidores e que o público normalmente não percebe quando acompanha a cobertura?
Basicamente não. O Geoff vez ou outra entra pras cortinas para beber água ou outra coisa do tipo. Fora isso, há muitos operadores de câmera e ajudantes por todo o lugar, mas tudo que se vê no YouTube é o mesmo que se vê por lá. Por ser ao vivo, não tem muito pra onde correr. Até as gafes todos nós vemos.
A diferença aqui talvez seja só a gritaria. A gente realmente se empolga, se levanta, grita, conversa e tudo mais; algo que não é tão perceptível pra quem vê pelo streaming.
Qual foi o momento mais marcante da sua experiência no Summer Game Fest deste ano?
Quanto a jogos de videogame sempre tenho hype baixo. Não estou muito empolgado quanto a isso até mesmo pra que eu seja imparcial em previews e reviews. Mas uma coisa legal foi lá no Magic the Gathering. Joguei com a designer da nova coleção da Marvel, venci e ela me deu um deck do Hulk depois de eu ter contado que é o herói favorito do meu pai. Eles ainda autografaram uma blank card que levei pra viagem e me deram uma tonelada de brindes. Pessoal gente boa.

Participar presencialmente do evento mudou sua visão sobre a indústria de games? De que forma?
Mudou algumas coisas. Percebi que os criadores de conteúdo são mais acessíveis e gente boa do que pensamos (incluindo alguns bem famosos), que os PRs não são vaidosos e que só querem te ajudar, que ainda há espaço pro lançamento de grandes projetos e de games originais (apesar de tudo mostrar o contrário), que é obrigatório você ir pra um grande evento internacional em sua vida, que os desenvolvedores realmente amam o que fazem e não criam algo com único propósito comercial (mas isso faz parte, obviamente) e que a Ásia é o futuro.
Mas é importante você ter a mente aberta. Quem faz parte de bolhas e do flame, não possui senso crítico ou não tem traços de socialização não vai conseguir perceber essas coisas.
Quais habilidades você considera mais importantes para quem quer trabalhar com jornalismo de games hoje?
Flexibilidade pra não se ater a regras e conseguir adaptar sua comunicação pra algo mais agradável (pense SEMPRE em quem lê).
Agilidade no fluxo de pensamento, já que a IA nem de longe vai resolver os teus problemas.
Conhecimento exageradamente amplo sobre games. Isso é obrigatório pra qualquer área, mas ter referências no jornalismo é absolutamente obrigatório. Uma hora você vai ser testado, pode anotar.
Ter a mente aberta. Ser o dono da razão vai te prejudicar MUITO aqui. Você precisa saber conversar, saber ser gente boa, saber ouvir e ter consciência de si, no sentido que nós erramos e vamos errar por toda a eternidade. Humildade pra reparar erros, pra pedir desculpas e pra ser claro é essencial. As pessoas gostam (especialmente os PRs).
Ter malícia. Isso também é importante pra tudo na vida. A indústria de games ainda é uma área onde muitas pessoas tentam se aproveitar. Então, apesar de você precisar confiar nas pessoas que tão ao seu lado, sempre desconfie das intenções dos outros e faça o teu corre. Ter malícia é muito importante.
Como você enxerga o futuro do jornalismo de games diante do crescimento dos criadores de conteúdo e da inteligência artificial?
Brutal. Recomendo que todos os jornalistas desenvolvam seus lados como criadores. Mostra as caras no TikTok ou no YouTube, aprenda a dar opiniões, foque boa parte do seu tempo em conteúdos autorais, mesmo que não sejam originais (no caso, com inspirações em algo que outros já fizeram). O jornalismo tradicional já era, e boa parte disso aconteceu não só pela IA, mas pela péssima capacitação dos antigos e futuros profissionais. Hoje se tornou uma briga de egos, drama excessivo e uma competição absurda pelo bait ou por uma falsa coletividade. A vaidade desses profissionais os cegou pro avanço da IA e os impediu de acompanhar esse processo. Então muitos pararam no tempo e não têm mais condições de se recuperar.

Qual é o maior mito sobre a profissão que você gostaria de desmistificar?
Que somos pagos pelas empresas. Escuto muita gente falando que as empresas pagam e cobram pra que seus jogos recebam notas boas, por exemplo. Isso definitivamente não existe. Sou muito conhecido por falar mal e sempre procurar o erro nas coisas que faço, e tenho um excelente relacionamento com todos os assessores, relações públicas e desenvolvedores.
Fora isso, há uma ideia de que as pessoas representam um veículo. Isso não existe. Elas são vozes daquele veículo. Como dizem as bio, “minha opinião é apenas minha”. Então também há uma comparação constante de opiniões de um mesmo site, por exemplo, mas dadas por pessoas diferentes e com ideologias completamente diferentes. É uma comparação injusta, desleal e idiota.
Que conselho você daria para alguém que deseja começar no jornalismo de games atualmente?
Pense em algo próprio. Use o jornalismo pra aprender, criar contatos, ser visto e tudo mais, enquanto paralelamente cria algo próprio. Seja um perfil no TikTok, um canal no YouTube e tudo mais… E tenha paciência. Os resultados demoram a aparecer.
Há oportunidades para todos por aí, e não se feche pro mundo. Trabalhar no jornalismo gringo também é sempre um caminho viável. Então aprenda um novo idioma, de preferência o inglês, e o domine completamente. As portas vão se abrir pra você, pode confiar.
Considerações finais
O jornalismo de games continua sendo uma das portas de entrada mais relevantes para quem deseja atuar na indústria, mas também é uma das áreas que mais precisou se adaptar nos últimos anos. As experiências compartilhadas pelo André mostram que conhecimento técnico, capacidade de comunicação, atualização constante e construção de uma marca pessoal se tornaram competências praticamente indispensáveis.
Se você pretende seguir esse caminho, vale a pena estudar a profissão, conversar com quem já atua nela e começar a produzir conteúdo desde cedo. A prática continua sendo uma das formas mais eficientes de desenvolver experiência e criar oportunidades.
Agradeço ao André Custódio pela disponibilidade em compartilhar sua trajetória e seus aprendizados nesta entrevista.



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